Um estado de loucura chamado ‘desejo de ser mãe’, texto de Cláudia Gimenes.

* TEMPO DE ESPERA *

Em nosso grupo, a maioria das pessoas está a espera.

Temos, sim, ideia do que se passa dentro da gente nesse momento, embora a gente nem sempre tenha coragem de dizer.

Por isso pesquisei alguns textos que falam desse momento. Textos com enfoques diferentes, mas todos muito profundos e reais.

Leiam quando puderem, leiam quando se sentirem bem para ler, leiam quando puderem chorar se quiserem, leiam quantas vezes sentirem vontade.

Somos pessoas diferentes que mal se conhecem, ligadas pelo mais importante ato de amor de nossas vidas, por isso tenham certeza, que nos entendemos.

Curtam!!!

Um estado de loucura chamado ‘desejo de ser mãe’ texto de Cláudia Gimenes

 

Novela "Em família" - 2014

Novela “Em família” – 2014

 

Temos visto desde o início da novela Em Família a evolução do, digamos, estado de loucura da Juliana (Vanessa Gerbelli) motivado pelo desejo ardente de ser mãe.

Em entrevista à Ana Maria Braga a atriz fala em um estado de histeria.
Como não entendo de histeria e muito embora não entenda nada de doenças psiquiátricas, creio que o desejo de algo acalentado por muito tempo gere, sim, alguma doença psiquiátrica.

Como a maternidade é algo que ocorre de forma natural à maioria das mulheres, uma personagem como esta parece surreal, parece ‘coisa de novela’, parece historinha da cabeça do autor, mas posso afirmar que não é.

Vendo a personagem eu sinto pena. Pena não por ela não estar com a criança que ela pensa ser sua filha. Pena pela dor que ela me faz rememorar, reviver. Pena porque, embora eu saiba que é uma novela, uma história, aquela personagem que simboliza e representa muitas mulheres reais sofre. Ela sofre! E eu sei como é este sofrimento.
Desejar ter um filho ano após ano sem conseguir dói. Dói muito e por mais que se tente manter o otimismo, buscar alternativas, chega uma hora que a dor é tanta que a gente enlouquece. Sim! Enlouquece! Tudo passa a girar em torno da maternidade que para ‘todo mundo’ é algo natural e que para a gente é negado pela natureza.

Atrasos da menstruação por algum tempo são desejados, sonhados e quando ocorrem te levam do delírio à depressão quando, dias depois do atraso, a menstruação desce!

A cada menstruação que desce, desce com ela a esperança, o sonho, a maternidade.

Ela, a Juliana da novela, tem um marido que nunca a apoiou, que nunca deu valor para o sentimento em relação à maternidade, mas mesmo quando se tem marido companheiro isso tudo é muito difícil.

Eu casei desejando ser mãe. Aliás, eu desejava ser mãe desde que me conheço por gente. A lembrança mais remota que tenho disso é aos 8 anos, eu em frente ao espelho vestida com uma camisola larga imaginando como seria quando eu fosse adulta e tivesse barrigão com nenê dentro.

Quando eu me casei nossos planos eram de engravidar no primeiro ano de casados e eu sonhava voltar da lua-de-mel grávida o que, lógico, não aconteceu!

O tempo foi passando, ‘todo mundo’ à minha volta engravidava, tinha filhos, e comigo nada!

Pessoas que casaram depois de mim tiveram um filho, depois outro, pessoas que nem desejavam ter filhos engravidavam e comigo não acontecia nada!

Chega uma hora que umas pessoas começam a falar que você só fala nisso, que está obcecada. Outras pessoas se afastam.
E elas têm razão: a gente só fala nisso, só pensa nisso, dorme e acorda pensando nisso. E chora! A cada gravidez de alguma conhecida, amiga, vizinha a gente chora! Chora não porque elas ficaram grávidas, mas sim porque a gente não fica! Chora de pena de si mesma. Chora de raiva. Chora de desespero. Chora e até questiona Deus com um: porque para elas é tão fácil e para mim parece impossível?

Eu enlouqueci! Sim…enlouqueci.

Não cheguei ao estágio da Juliana de sonhar em matar alguém para ter o filho comigo, nem fiz nada nunca para tirar filho de ninguém por mais que eu achasse que esse alguém não tinha condições de ser mãe.

Não. Eu não fiquei como ela, mas eu fui muitas vezes à igreja que tinha perto de casa depois que meu marido saiu para trabalhar para ver se tinham deixado algum bebê lá, embaixo de algum banco. Isso porque nesta igreja sempre eram encontrados bebês abandonados na madrugada.

Cheguei a ir em dias seguidos, praticamente todos os dias, e no dia que eu não fui deixavam algum bebê. E eu sofria a dor de um aborto quando a notícia chegava. Doía demais ‘não ter ido no dia certo’.

Eu sonhava que deixavam um bebê na porta da minha casa. Sonhava que encontrava bebê em caixa na rua. E eu andava atenta procurando bebê porque eu sabia que sempre alguém ‘perdia’ um bebê numa sacola ou numa caixa média na rua.

E, de repente, ‘todas’ as lojas do shopping que ficava atrás da minha casa e por onde eu passava para pagar contas e fazer compras eram lojas de roupas e acessórios para bebês, ‘todas’ as mulheres que andavam na rua estavam grávidas. Eu não só falava o tempo inteiro sobre isso, como só via isso o tempo inteiro, também. Podia ter uma única grávida na multidão e meus olhos a encontravam!

E vou falar: essa é uma dor solitária! Ninguém entende! Aos poucos você sente que está chata, irritadiça, alterada. Sente que a convivência dos outros, das ‘pessoas normais’ com você é desagradável.

Eu não fiquei como a Juliana porque eu me dei conta que estava doente. Um dia demorei a dormir porque dormir mal passou a ser rotina e quando acordei eu me dei conta que naquele momento eu não tinha a menor condição nem de engravidar, nem de adotar. Eu simplesmente não tinha condições de ter uma criança comigo.

Isso aconteceu porque era dia de pagamento de contas, aluguel e compras, eu ia atravessando por dentro do shopping para chegar ao banco, imobiliária e mercado e, de repente, passa por mim no sentido contrário uma senhora, a qual lembro a fisionomia até hoje, com uma sacola das lojas Americanas portando uma banheira azul. Assim que vi a banheira na sacola tive um negócio. Não sei explicar o que eu senti, mas eu não via mais nada à minha frente, apagou tudo da memória, eu não sabia o que estava fazendo naquele lugar e voltei para casa, fechei a porta, sentei no tapete encostada na porta fechada e chorei. Chorei sem me dar conta de quanto tempo fiquei lá, daquele jeito. Parei quando a campainha tocou e eu vi que já tinha anoitecido. A vizinha da casa de baixo ouviu o choro quando entrou chegando do trabalho e tocou para saber se estava tudo bem.

Esse foi o pico da minha loucura! Como falei, nesta noite dormi mal e no dia seguinte me dei conta que eu não tinha equilíbrio suficiente para gerar e nem de cuidar de uma criança e decidi mudar tudo, voltar a trabalhar, me equilibrar para poder, um dia, ser mãe.

Logo voltei a trabalhar, mas o equilíbrio demorou a chegar. Por muito tempo eu andava, ainda, na rua com a esperança de encontrar uma caixa com um bebê dentro.

Um dia, logo que voltei a trabalhar, uma determinada manhã em que cheguei bem antes do horário determinei que neste dia sairia no meu horário certinho. Eu sempre ficava depois do horário, mas naquele dia eu queira sair no horário certo. Estava, já, arrumando a mesa quando uma colega pediu ajuda e eu atrasei 15 minutos para sair. No caminho para o metrô vejo um tumulto num dos cruzamentos, paro, pergunto para um vendedor de frutas o que tinha acontecido porque eu não vi nenhum vestígio de acidente no local e ele falou: ah, moça, a polícia acabou de sair daqui. Um carro parou aqui tem uma meia hora, se tiver isso, e deixou uma caixa junto com as caixas vazias encostadas no poste. Começamos a ouvir um barulho estranho na caixa e tinha dois bebês, acho que gêmeos, porque eram muito parecidos. A polícia acabou de levar a caixa com as crianças.

E nesse dia eu pirei porque não saí no meu horário.

O trabalho e o tempo ajudaram muito. Eu me curei, me tornei mãe, mas quando vejo esta novela tudo, toda a dor, todos os sentimentos voltam e eu sei que existem milhares de Julianas e de Cláudias por aí.

Não sei o que vai acontecer com ela, a personagem, mas posso dizer que isso tudo passa, basta ter vontade de melhorar para ser a melhor mãe que se puder ser!

Cláudia Gimenes do blog Adoção Amor Verdadeiro.

Fonte http://adocaoamorverdadeiro.blogspot.com.br/2014/03/um-estado-de-loucura-chamado-desejo-de.html

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3 comentários sobre “Um estado de loucura chamado ‘desejo de ser mãe’, texto de Cláudia Gimenes.

  1. perfeito. Quem nunca pirou na espera põe o dedo aqui!!! qto procurei à minha volta esse filho que no final chegou, e ficou láááá longe me esperando, porque era meu e de mais ninguém.

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