Pai de verdade – Guilherme Lima Moura

É comum ouvirmos por aí expressões do tipo “Não é seu pai (ou mãe) verdadeiro”, numa referência à filiação adotiva. Estimulados por afirmativas como esta, colocamo-nos em atitude reflexiva sobre a verdade da paternidade e da maternidade. Onde estará tal verdade? Em que consistirá uma mãe ou um pai de mentira? Tais questionamentos nos fizeram recordar um episódio que vivemos.

Imagem: Via Google

Há algum tempo eu estava com um dos meus filhos caminhando na praia quando encontramos com um de seus amiguinhos. Na ocasião, ambos estavam com seis anos. Após o início de uma breve conversa, enquanto brincávamos na areia, o menino saiu-se com esta: “Meu pai nunca me visita!”. Ante o inesperado da revelação, pude notar na sua espontânea expressão de tristeza o efeito devastador da inexistência paterna na vida de uma criança.

Não que ele − o dito “pai verdadeiro” − seja desconhecido, não esteja mais “entre nós” ou resida em lugar incerto e não sabido. Nada disso. Ele existe, sim. Tal existência, porém, é apenas a do indivíduo. No máximo, a do responsável financeiro. A palavra “pai”, no caso em questão (como em tantos outros), é usada em substituição a “genitor”, ou seja, o provedor do material genético necessário à gestação de outro indivíduo.

Pai de verdade?

Como esclarece o psicólogo e querido amigo da adoção Luiz Schettini, “a filiação é uma experiência ética, não genética”. Acostumamo-nos a chamar de pai ou mãe aqueles que, embora tenham nos premiado com a existência física, não puderam nos oferecer a coexistência afetiva. São indivíduos que geraram outros indivíduos. Permitiram a vivência, mas não proporcionaram a convivência. Aquela é o ponto de partida biológico, a produção de um potencial humano que só chega a realizar-se nesta, o espaço relacional e afetivo em que se desenvolve.

Na vida do coleguinha do meu filho, existe um genitor, mas não existe um pai. Embora às vezes confundamos um com o outro, as crianças vivem dramaticamente essa diferença. Naquele momento, ele se sentiu provocado pela presença do meu filho que ali se encontrava agarrado com o pai, sem entender porque ele próprio também não podia ter ao seu lado a presença paterna tão desejada.

“Onde estará meu pai?”, indagava-se intimamente mais uma vez o menino infeliz. “Mas por que não me ama?! O que eu fiz de errado?!”, concluía novamente cheio de tristeza e, certamente, de uma culpa que não lhe pertence.

Alheio aos vínculos biológicos que inexistem entre meu filho e eu, enxergou com clareza que entre nós dois a filiação era viva e verdadeira porque estabelecida em profundo afeto. Isso o que lhe importava. Isso o que lhe faltava.

Pai de verdade!

O garoto, cujo relato nunca esquecerei, é mais uma criança que vive o pior tipo de orfandade: a que surge na expectativa frustrada de um potencial de pai que, embora exista sempre, não chega a se realizar nunca. Que surge no contrário do amor: o abandono afetivo.

Estará a verdade da paternidade e da maternidade, então, no laço biológico? Ela ocorre simplesmente (e necessariamente) no encontro de amorosidade entre aqueles que decidem tornarem-se pais e filhos uns dos outros, havendo ou não o vínculo genético. Ela ocorre na ADOÇÃO.

Mentira? Verdade! Qualquer criança sabe disso.

Fonte: http://ne10.uol.com.br/coluna/atitude-adotiva/index.php

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