“Ele era filho adotivo”- Por Clau Gimenes

Novamente, compartilho um texto de uma grande pessoa, que os leitores do blog já conhecem. Em meio a tantas conjecturas, opiniões e asco, nossa amiga, chama atenção para essa informação, esse “rótulo”, vinculado na mída que magoa bastante.

Em suma, o resultado da tragédia como alguém comentou no twitter “são 12 mortos e 190 milhões de feridos”…  por que

filhos biológicos não vêm com garantia de idoneidade,

filhos adotivos não vêm com sentenças de condenação!

 

Esta semana o Rio de Janeiro e o Brasil figuraram em noticiários nacionais e internacionais como palcos de uma tragédia pavorosa: o ataque de um ex-aluno a uma escola, resultando na morte de 12 adolescentes, algumas dezenas de feridos e uma nação em choque!

Sempre que uma tragédia como esta ganha destaque, buscam-se orientações de especilistas à procura de um motivo para tal ato insano! Levantam-se hipóteses, tentam traçar um perfil do agressor através de seu comportamento, de seus relacionamentos, do que falava, de como agia.

Aconteceu com Suzane Richthofen! Menina de classe alta, filha de um engenheiro e uma psiquiatra, havia estudado em excelentes escolas, tido uma boa educação, era estudante de direito! A justificativa que encontraram: ela era psicopata! Não sente arrependimento, é fria, não tem afetividade.

Aconteceu com Mateus da Costa Meira, estudante do último semestre de medicina que atacou pessoas à metralhadas dentro do cinema em um shopping de São Paulo: tinha desequilíbrio, fazia tratamentos com psiquiatras e tomava medicação controlada. Surtou!

Aconteceu com Lindenberg Alves (para quem não lembra, é aquele que matou Eloá após 100 horas de cárcere privado)! A justificativa que encontraram: ele era traumatizado e revoltado porque o pai o abandonou ainda criança e se envolveu com más companhias!

Aconteceu com Gil Rugai: ele foi levado a cometer o ato insano porque queria poder na empresa do pai e deu desfalque na empresa.

Aconteceu com Alexandre Alvarenga, produtor musical de Campinas que atirou seu bebê contra o pára-brisas de uma Blazer em movimento e bateu com a cabeça da outra filha no tronco de uma árvore logo após um acidente de trânsito: teve um surto psicótico motivado por distúrbios mentais.

Aconteceu com Alexandre Nardoni: os ciúmes da mulher podem tê-lo afetado e ele pode ter tido um surto querendo resolver a situação.

Todas estas pessoas são FILHAS BIOLÓGICAS! Ninguém, em momento algum, buscou motivos na filiação destas pessoas! Os motivos eram externos: psicopatia, surto psicótico, ganância, vingança.

Em nenhum telejornal  foi frisado: fulana, ou ciclano são filhos biológicos, tiveram a infância assim ou assado, a mãe passou pela gravidez de tal ou qual modo! Não!!! O termo ‘filho biológico’ nunca é utilizado por pior e mais perverso que seja o crime.

Porque, então, quando uma coisa assim acontece com alguém que foi adotado, o fato de ser adotado precisa ser comentado e ressaltado todas as vezes que o assunto é abordado?! Que relevância tem se Mateus da Costa Meira é filho biológico e o Wellington Menezes era filho adotivo?

O que os diferencia, sendo que ambos cometeram atrocidades contra outros seres humanos, aparentemente sem motivos e nem lógica?!
Em quê ajuda a informação de que Wellington foi adotado ainda bebê?!
Em quê muda a dor das famílias acometidas por estes doentes mentais o fato de um ser biológico e o outro ser adotivo?

Tenho acompanhado este triste caso desde o ocorrido e naquele momento, quando encontraram a tal carta, começaram a divulgar que ele havia pedido para ‘ser enterrado junto à sua mãe adotiva’ e eu fiquei curiosa para conhecer a íntegra da tal carta! Me perguntava: será que ele escreveu isso: quero ser enterrado junto à minha mãe adotiva? Eu não conseguia crer nisso, afinal de contas, filhos adotivos acolhidos e reconhecidos como FILHOS jamais se reportam a seus pais com esta distinção: meu pai adotivo, minha mãe adotiva, porque pai é PAI  e mãe é MÃE, independente de como nasça o filho!

Neste caso me pareceu que ele não foi adotado por toda a família, mas ele certamente tinha uma relação afetiva e próxima com a mãe, tanto que queria ser entrerrado junto a ela! Ela, ao menos, o aceitou como FILHO! Veio, então, a íntegra da tal carta e conforme eu imaginava ele escreve apenas: ‘e se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme’. Em momento algum ELE cita que a mãe é adotiva!

Fico perplexa com isso, porque nos outros casos a explicação nunca está dentro da família ou da filiação, mas neste caso, bem como em poucos outros de menor impacto, o fato de o indivíduo ser adotado parece fazer toda a diferença e parece explicar, em parte, o motivo de sua insanidade!

Isso coloca a nós, pais e filhos adotivos, em destaque de forma negativa!
Há pessoas perguntando se pais adotivos não estão com medo de seus filhos! Há gente com receio de colegas de trabalho por saberem ser estes colegas filhos adotivos!

O que se ganha destacando esta característica filial de Wellington?! Será que ninguém compreende que psicose pode acometer qualquer indivíduo, seja este adotivo ou biológico?!

Não! Acho que não! Quando o algoz de uma desgraça é filho adotivo, a imprensa e a sociedade como um todo, diante do destaque que se dá à filiação, esquecem-se dos casos atrozes cujos algozes eram filhos biológicos! O adotivo, de forma indireta, passa a ser um bandido, um assassino em potencial! E aí generaliza-se socialmente, porque cria-se um medo velado dos adotivos e reforça-se o medo e o preconceito contra a adoção, pricipalmente quando o fato é amplamente esmiuçado!

E aí ouve-se dizer: ele tinha pensamentos suicidas, sentia vontade de explodir um avião como fizeram com as torres gêmeas, era calado, não tinha amigos e era filho adotivo!

E ouve-se relados de ‘familiares’ dizendo que “a mãe dele tentou suicídio e não teve condições de ficar com ele. Era esquisofrência, então a tia resolveu adotá-lo”. E aí generaliza-se novamente! Todo esquisofrênico passa a ser considerado um risco, um louco que vai sair matando a qualquer momento por aí!

Como, então, adotar uma criança cuja mãe biológica seja esquisofrênica, agora? Que mofe no abrigo, então, infeliz! Quem mandou nascer de mãe esquisofrência?!

E agora, como ficam os esquisofrênicos que se tratam, que levam uma vida normal?! Creio que do mesmo jeito que estão com medo dos adotados, devam estar com o mesmo…ou mais…medo dos reconhecidamente esquisofrênicos!

Eu tenho uma amiga com esta doença, ela tem 4 filhos e leva uma vida perfeitamente normal. É uma exelente mãe, esposa e dona de casa, uma mulher cheia de amor e princípios. As suas crianças são crianças inteligentes, educadas, amorosas. São tudo de bom!

Essa informação tem alguma relevância para se compreender o incompreensível?! Creio que não!

Como mãe, irmã e prima de adotados, amiga de mães e pais adotivos e como amiga pessoal de uma pessoa com esquisofrenia deixo meu protesto aqui!

Não vejo relevância nenhuma em se destacar o fato de que o garoto era adotado, nem tampouco que sua mãe biológica era esquisofrênica porque ele poderia ser filho biológico de uma mãe normal e ter feito o mesmo, assim como fizeram todos aqueles que citei acima, assim como fizeram a grande maioria dos bandidos cruéis que estão lotando as cadeias do Brasil inteiro!

A esquisofrenia pode ser hereditária, mas não justifica e nem explica o caso!
A mãe biológica ter tentado suicídio também não explica nem justifica o ato insano dele, porque mães biológicas sem esquisofrenia também tentam suicídio!

Tentando encontrar justificativas no fato de ter sido ele adotado ou de sua mãe biológica ser esquisofrênica só estão ajudando a denegrir a adoção, só estão deitando por terra o trabalho que a própria imprensa tem feito no sentido de desmistificar a adoção!

Como adquirir credibilidade, emissoras, que num dia estão fazendo uma linda e útil matéria sobre filiação adotiva, sobre adoção tardia, mostrando relatos e histórias bem sucedidas e em outro dia estão destacando que um maluco em surto psicótico entrou numa escola e matou crianças, se matou, ressaltando sempre que ele fora adotado quando bebê?! Que lógica tem isso, afinal?

Convido todos os pais, mães, filhos adotivos a se manifestarem através de e-mails para estas emissoras porque para a veiculação do fato ocorrido não tem relevância nenhuma a forma como o indivíduo tornou-se filho!

Ou que ressaltem, então, em TODOS OS CASOS, esmiuçando a infância e a vida pregressa de todos os assassinos atrozes, inclusive os filhos biológicos. Que se destaque que são filhos biológicos, que usem este termo, assim como o fazem com os filhos adotivos, levando-se em conta que proporcionalmente os filhos biológicos figuram em maior número em noticiários policiais do que filhos adotivos!

Filhos biológicos não vêm com garantia de idoneidade, filhos adotivos não vêm com sentenças de condenação!

Para encerrar:

Que Deus ampare estes jovens que foram retirados da vida de forma tão brutal e dê conforto às famílias!
Que Deus tenha piedade da alma deste infeliz!

Cláudia

Fonte: http://www.adocaoamorverdadeiro.blogspot.com/


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